A elevada espiritualidade e o admirável empenho para manter a tradição, contribuem para envolver o universo cigano numa atmosfera de singularidade e mistério.
Embora nada tenha a ver com esse universo, o texto a seguir trata de um assunto igualmente singular e misterioso, além de lendário e mitológico. Diz respeito a uma ilha, dita fantasma, que o mundo dos gadjós (não-ciganos) escassamente conhece, mas que, aqueles que por um caso tiveram acesso à sua provável existência afirmam terem se rendido à faceta intrigante do desconhecido.
Segundo relatos de alguns navegadores e o trabalho minucioso de muitos cartógrafos, principalmente os dos séculos XIV e XV, existiria, desde tempos imemoriais, uma estranha ilha situada a oeste da Irlanda, cuja principal característica seria sua aparição apenas de sete em sete anos, após um intenso e repentino nevoeiro. Essa ilha, de acordo com os mapas e com as histórias que atravessaram todas as eras, seria a Hy-Brasil. Também chamada Brasil de São Brandão, Ilha Brasil ou Ilha do Brazil.
Existe uma longa discussão em torno desse nome - Brasil - que não cabe aqui reproduzir. O importante é que a essa ilha misteriosa - ou mitológica, como queiram - dever-se-ia o nome desse país-continente em que vivemos, o que colocaria por terra a repetida versão da história oficial de que estaria relacionado à madeira aqui encontrada pelos descobridores, o pau-brasil, que, de tão avermelhada, ao observador parecia estar "em brasa". Ou, "um brasil".
Segundo a lenda, a lendária ilha, bem no meio do "mar oceano", seria o abrigo de uma sociedade de características avançadas - como Atlântida - e de um imenso tesouro, com ouro e prata em abundância. Existe, inclusive, o relato de um daqueles desbravadores do ciclo dos descobrimentos que jurava ter descido à ilha e retornado à sua embarcação com metais preciosos e um ancião nativo.
A se dar um mínimo de credibilidade a essas histórias, é possível acompanhar a existência de sucessivas referências, nos mapas elaborados ao longo dos séculos já citados e um pouco adiante, à Hy-Brasil, sempre naquela região (oeste da Irlanda) e ligada à "tradição de São Brandão das terras afortunadas". Senão, vejamos:
--- mapa da Catalunha, de 1324 ou 1330, de autoria de Angelino Dalorto
--- mapa de Dulcert, de 1339
--- mapa dos irmãos Pizagani, de 1375 ou 1378
--- mapa de Andrea Bianco, de 1436
--- mapa atlântico de Zuane Pizzigano, de 1424
--- mapa anônimo, chamado Weimar, de 1425
--- mapa de Battista Ceccario, de 1435
--- mapa de Bartolomeu Pareto, de 1455
--- mapas de Gracioso Benincasa, de 1479 e 1482
--- mapa de Fernão Vaz Dourado, de 1568
Se você acha que tem mistério de mais, aguarde Hy-Brasil II.