UM MUNDO QUE TAMBÉM É NOSSO
Mágico, porque nele a magia existe e se move; encantado, porque as entidades que nele habitam são ditas "encantadas"; misterioso, porque nele o mistério está em toda parte: na lua madrinha, na força do vento, na estrela distante, no olhar da coruja, no poder da salamandra - espírito do fogo, na beleza da dança com os pés no chão, nas palavras da cigana que encontramos no meio da estrada. Assim é o mundo cigano.
Os costumes, as crenças, a história, as lendas, os valores desse povo não encontram paralelo nas sociedades "gadjós" (não-ciganos). Talvez por isso, exerçam tanto fascínio sobre nós, espectadores desse mundo.
Através dos textos, ora informativos, ora romanceados, relativos a esse universo singular e místico, este espaço busca trazer um pouco da tradição e desvendar o cotidiano de alguém que sabe que a essência dessa aventura chamada viver cabe toda num pote cigano.
Ao penetrar no mundo das pessoas Rom, algo que acontece naturalmente é a escolha de um cigano ou cigana de proteção. Claro que existem correlações entre as datas de nascimento e tais espíritos de luz. Porém, o mais importante é que essa entidade esteja em sintonia com nossa vibração, com nossas expectativas. Essencial é a identificação com a trajetória, os ensinamentos, o posicionamento deles em relação às coisas que têm relevância para nós: o amor, a saúde, a harmonia interior, a Natureza ... a prosperidade, por que não?
Não devemos entregar nossas vidas a esse ou essa cigana de luz, mas a ele ou ela recorrer quando necessário e frequentemente para agradecer. Eles são protetores, e não guardiães.
Um critério para a escolha, que deve ser de pronto afastado é a beleza. Aliás, beleza só é critério em concurso de misses. A entidade cigana que conquistar seu coração e sua mente deve estar numa redoma de devoção, afinidade, confiança e amor. Embora seja muito comum acontecer de tal entidade caracterizar-se por extrema beleza, charme, elegância, simpatia e sensualidade. Para ficar em apenas dois dos muitos exemplos, temos as ciganas Sarita e Samara, ambas em minha aura.
Samara é uma linda cigana ruiva - algo raro em se tratando de um povo possivelmente originário da Índia - cujo nome significa "protegida por Deus". Ela trabalha com o fogo e as salamandras; usa a chama de uma vela vermelha e a labareda da fogueira sagrada para desmanchar feitiços. Traz sempre na mão direita um vistoso cristal jaspe sanguíneo. Já Sarita é uma cigana igualmente bela, andarilha, que trabalha na cor vermelha para o amor e em amarelo/dourado para a prosperidade. Sarita da Estrada, também chamada Sarita dos Caminhos, adora dançar e receber flores para colocar no cabelo. Seu vestido bordô com rendas douradas empresta ao seu porte majestoso uma elegância divina. Dizem que se alegra com oferendas, como um arranjo de flores vermelhas, vinho tinto ou água e uma taça - uma dessas coisas. E as recebe em cruzeiros de jardim ou em encruzilhadas de praças.
Este texto inicia uma série denominada "lua madrinha - mundo cigano", com postagens sempre às segundas - feiras. E para encerrá-lo, gostaria de reafirmar que o enigmático mundo cigano, no fundo, é o mundo de todos que têm alma cigana. Um mundo que também é nosso e onde a felicidade assim se define:
Um campo aberto
Um luar
Um violão
Uma fogueira
O canto do sabiá
A magia de uma cigana