sexta-feira, 9 de outubro de 2015

TROCA LITERÁRIA

TROCA LITERÁRIA

Um blog tem como foco a temática escolhida. "Lua madrinha" transita pelo universo cigano, essencialmente. Mas não exclusivamente. Procura, falando da história, da cultura e das crenças desse povo, inseri-las no mundo como um todo. O mundo com o qual os ciganos interagem e onde, portanto, precisam se relacionar com não-ciganos.
Existe uma comunicação entre os dois mundos: o peculiar, dos Rom, e o abrangente, dos gadjós. Essa comunicação se dá em diversos aspectos, sendo um deles o da escrita. Mas, como? Não é o povo cigano restrito à tradição oral? Sim, mas existe uma geração que abandonou o nomadismo e se integrou perfeitamente à comunidade onde vive. E que, aliás, vive como médico, advogado, comerciante ... e poeta, por exemplo. Daí porque, verifica-se uma troca de experiências literárias, em que a reflexão de um aponta para a sensibilidade do outro; a interpretação filosófica, para o viés espiritual do outro.


Religiosidade

Religiosidade,por quê? Porque, em algum momento, deixamos escapar o curso normal e, numa tentativa de recuperá-lo, apelamos para o desconhecido, o inexplicável. Assim, a religiosidade existe num contexto de substituição da lógica pela crença, em seu sentido místico.

Mito

Mito, segundo reflexões muito exclusivas, tem ao menos três concepções: quando eu falo em mito de fundação (de um país, por exemplo), estou querendo me referir às histórias, à epopeia, aos acontecimentos fantásticos em torno do surgimento desse país; se, porém, eu relato episódios havidos em um mundo paralelo - e, ao mesmo tempo, superior do ponto de vista da imortalidade - eu estou colocando em evidência as histórias do universo dito mitológico, o reduto das divindades. Porém, o mito também tem uma conotação, digamos, mais popular - estamos nos referindo ao engano, à farsa e à "máscara que cai", e que, nessa hipótese, desmistifica. É o que ocorre quando fatos novos, concretos e incontestáveis atestam que essa ou aquela impressão, desde sempre passada para o grupo, afinal não se sustenta - justamente porque, ao invés de se confirmar como verdade, se  revela como mentira.

sábado, 3 de outubro de 2015

A DIÁSPORA CIGANA

A DIÁSPORA CIGANA
Em um mundo cada vez mais próximo do mito do Apocalipse - caos, violência humana, desordem, desconstrução - nos sentimos vivendo em uma casa onde todos os fios estão desencapados.
Um conhecido intelectual europeu, com mais de oitenta anos, declarou outro dia que jamais imaginou que iria assistir novamente aos espetáculos de barbárie e estupidez posto em cena pelos nazistas. E no entanto, o Estado Islâmico parece ter não apenas lhes sucedido como excedido em selvageria.
A dispersão de povos pela Europa é o que de mais deprimente se poderia assistir após a insana caminhada dos judeus rumo aos fornos de cremação. A tal ponto é capaz de afetar as pessoas com um mínimo de sensibilidade e piedade cristã, que tudo o mais de suas próprias vidas torna-se irrelevante - por mais sofrimento que represente - diante do drama desses seus semelhantes. Milhares de seres humanos se deslocando sem muita noção se vão chegar a algum lugar - e onde vão chegar - podem ser comparados a manadas sendo tangidas para o matadouro. Mantém grande semelhança, mas consegue ser pior em desgraça que a diáspora do povo cigano.
"Ó História! Como na caldeira
Onde os países fervem
Tu repudiaste a família cigana!
Tu queimaste seu coração de fogo..."
                                   Leksa Manush

Alguém disse, certa vez, que o cigano não sente saudade porque não em pátria pela qual possa chorar. Não é verdade. Cada lugar por onde passa, deixa em cada Rom um sentimento de nostalgia - de um canto a outro tudo muda, tudo é próprio e exclusivo, só a lua e as estrelas é que são as mesmas.
Nascidos não se sabe bem aonde, rejeitados não se sabe bem por quê, os ciganos constituíram, ao longo dos séculos, correntes migratórias que os espalhou pelo mundo. Empreenderam pelo menos três diásporas. Discriminados, perseguidos, escravizados, maltratados e exterminados em bando, chegaram a ser considerados uma moléstia, coisas e não pessoas Sua errância constante e a ausência de uma tradição escrita transformou sua história neles mesmos - cada cigano é sua própria história. Uma história de horror e resistência. Dizem que não sucumbiram graças à tradição e porque são homens-árvore originários das entranhas da Terra.