A cigana Samara vive com seu clã e conserva a tradição em seu coração e em suas atitudes. Não obstante, ela tem inúmeros amigos 'gadjós' (não-ciganos), frequenta a escola da cidade encostada à qual ela vive e pretende ser historiadora. Samara tem a beleza na pele, nos olhos, no sorriso, no seu interior e naquilo que escreve.
"Volto a enxergar, pelos teus olhos, o quanto de azul existe no amor.
As pessoas falam do amor - como também do desamor - segundo suas experiências. Parece que no amor existem sons, aromas e cor. Do amor, quero crer, dizem melhor as cores que os sabores; as sombras que a claridade; o silêncio que as palavras.
Não são todas as cores que cabem no amor. O cinza, por exemplo, só cabe no desamor. O vermelho é paixão, mas também é raiva. Mesmo assim, cabe. O amarelo é sol, mas também é cobiça. Fica a pergunta: cabe ou não cabe? O verde é esperança, mas pode ser a cor do quartel. Cabe? O branco é paz, e também é nada.
Se há os que amaram a vida inteira, também há os que esqueceram a forma, o cheiro, a cor do amor.Eu sou um desses. Ou melhor, era. Descobri que para quem reencontra o amor, a única cor que nele cabe é a cor dos olhos da amada. Ou seja, além do céu, do mar, de uma certa lua, pelo menos para mim o amor é azul. A cor dos seus olhos. Ao contemplá-los, bem lá no fundo, fico com a impressão de que as coisas são azuis, os sentimentos são azuis, o mundo - o nosso mundo - é azul.
luamadrinha
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
CIGANOS NA UMBANDA
Nômades muito mais por necessidade do que por natureza, os ciganos, em sua esmagadora maioria, sofrem privações e um cruel processo de exclusão. Além de não serem aceitos na sociedade, os mais elementares direitos lhes são frequentemente negados.
Como as contradições são, curiosamente, uma das características da natureza humana e do contexto social, uma parte daqueles que não toleram os Rom recorrem às ciganas para conhecer o próprio futuro ou para recuperar o amor fugitivo. E, claro, para superar as doenças e esconjurar a pobreza. Quer dizer, a mesma pessoa que não é digna de seu bom dia, eles e elas procuram, no lusco-fusco, para trazer de volta a saúde ou o afeto.
Por trás desse modo incoerente de enxergar os ciganos, está o reconhecimento da acentuada espiritualidade de que são dotados; há a crença na força espiritual e nos poderes dos filhos do vento (e da lua, das estrelas...). Há, também, a confiança na eficácia dos potes e encantamentos, das simpatias e dos feitiços.
Pessoas estudiosas das manifestações espirituais afirmam que os ciganos, ao longo do tempo e no conjunto das opções religiosas, demonstraram profunda identificação com a doutrina umbandística. Talvez porque umbanda seja, reconhecidamente, amor e caridade. E esses são preceitos muito caros ao povo cigano, intensamente valorizados no cotidiano das relações sociais. No entender dos umbandistas, os espíritos ciganos que comparecem aos terreiros seriam trabalhadores do plano espiritual a serviço dos necessitados, e em busca de desenvolver-se na linha da solidariedade, do apoio e da justiça. Seria então a umbanda, o espaço encontrado por essas entidades para praticar o bem e aliviar os sofrimentos.
Aprofundando-se um pouco no universo da umbanda, descobre-se que esses trabalhadores tanto podem se manifestar na chamada "linha da direita" quanto na pouco compreendida "linha da esquerda". Ou seja, através dos ciganos e ciganas já desencarnados e que, em vida, geralmente foram andarilhos ali pelos séculos XIII a XVI, e através dos injustamente discriminados exus e pombas-giras - exus ciganos e pombas-giras ciganas.
Conhecedores dos ritos umbandistas sabem que essas entidades - genericamente chamadas de "povo da rua" - não representam o mal, muito pelo contrário, e estão muito mais próximas de nós, encarnados, por atenderem, com mais vigor e determinação, nossos anseios, nossas necessidades, nossas aflições, em relação à vida emocional, às questões do amor e à felicidade. A pomba-gira seria, por excelência, geradora do desejo e da afeição; guardiã e não propriamente protetora - no que esses conceitos diferem no plano espiritual.
Entre as diversas entidades identificadas como pombas-giras ciganas gostaríamos de, emblematicamente, destacar a Pomba Gira Cigana da Estrada (às vezes confundida com a Pomba Gira Sarita da Estrada):
_ é entidade guardiã que vem da linha da cigana, e cruzada com a Estrada; desfaz as encruzilhadas da vida;
_ atua através da denominada "magia cigana" - tanto a magia leve quanto a pesada; é uma verdadeira feiticeira;
_ prefere receber oferendas em estrada de chão; fica particularmente agradecida e feliz com uma ou algumas dessas homenagens:
* incensos bem agradáveis
* velas nas seguintes cores: branco, preto/vermelho, rosa, vermelho, amarelo
* maçãs (verdes ou vermelhas)
* uva
*vinho suave
*brincos e colares
*perfumes
*7 cigarros
Preferencialmente as oferendas devem ser feitas nos dia 07/14/21 e em um desses horários: 00:00h/12:00 h/18:00 h.
Como as contradições são, curiosamente, uma das características da natureza humana e do contexto social, uma parte daqueles que não toleram os Rom recorrem às ciganas para conhecer o próprio futuro ou para recuperar o amor fugitivo. E, claro, para superar as doenças e esconjurar a pobreza. Quer dizer, a mesma pessoa que não é digna de seu bom dia, eles e elas procuram, no lusco-fusco, para trazer de volta a saúde ou o afeto.
Por trás desse modo incoerente de enxergar os ciganos, está o reconhecimento da acentuada espiritualidade de que são dotados; há a crença na força espiritual e nos poderes dos filhos do vento (e da lua, das estrelas...). Há, também, a confiança na eficácia dos potes e encantamentos, das simpatias e dos feitiços.
Pessoas estudiosas das manifestações espirituais afirmam que os ciganos, ao longo do tempo e no conjunto das opções religiosas, demonstraram profunda identificação com a doutrina umbandística. Talvez porque umbanda seja, reconhecidamente, amor e caridade. E esses são preceitos muito caros ao povo cigano, intensamente valorizados no cotidiano das relações sociais. No entender dos umbandistas, os espíritos ciganos que comparecem aos terreiros seriam trabalhadores do plano espiritual a serviço dos necessitados, e em busca de desenvolver-se na linha da solidariedade, do apoio e da justiça. Seria então a umbanda, o espaço encontrado por essas entidades para praticar o bem e aliviar os sofrimentos.
Aprofundando-se um pouco no universo da umbanda, descobre-se que esses trabalhadores tanto podem se manifestar na chamada "linha da direita" quanto na pouco compreendida "linha da esquerda". Ou seja, através dos ciganos e ciganas já desencarnados e que, em vida, geralmente foram andarilhos ali pelos séculos XIII a XVI, e através dos injustamente discriminados exus e pombas-giras - exus ciganos e pombas-giras ciganas.
Conhecedores dos ritos umbandistas sabem que essas entidades - genericamente chamadas de "povo da rua" - não representam o mal, muito pelo contrário, e estão muito mais próximas de nós, encarnados, por atenderem, com mais vigor e determinação, nossos anseios, nossas necessidades, nossas aflições, em relação à vida emocional, às questões do amor e à felicidade. A pomba-gira seria, por excelência, geradora do desejo e da afeição; guardiã e não propriamente protetora - no que esses conceitos diferem no plano espiritual.
Entre as diversas entidades identificadas como pombas-giras ciganas gostaríamos de, emblematicamente, destacar a Pomba Gira Cigana da Estrada (às vezes confundida com a Pomba Gira Sarita da Estrada):
_ é entidade guardiã que vem da linha da cigana, e cruzada com a Estrada; desfaz as encruzilhadas da vida;
_ atua através da denominada "magia cigana" - tanto a magia leve quanto a pesada; é uma verdadeira feiticeira;
_ prefere receber oferendas em estrada de chão; fica particularmente agradecida e feliz com uma ou algumas dessas homenagens:
* incensos bem agradáveis
* velas nas seguintes cores: branco, preto/vermelho, rosa, vermelho, amarelo
* maçãs (verdes ou vermelhas)
* uva
*vinho suave
*brincos e colares
*perfumes
*7 cigarros
Preferencialmente as oferendas devem ser feitas nos dia 07/14/21 e em um desses horários: 00:00h/12:00 h/18:00 h.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
TROCA LITERÁRIA
TROCA LITERÁRIA
Um blog tem como foco a temática escolhida. "Lua madrinha" transita pelo universo cigano, essencialmente. Mas não exclusivamente. Procura, falando da história, da cultura e das crenças desse povo, inseri-las no mundo como um todo. O mundo com o qual os ciganos interagem e onde, portanto, precisam se relacionar com não-ciganos.
Existe uma comunicação entre os dois mundos: o peculiar, dos Rom, e o abrangente, dos gadjós. Essa comunicação se dá em diversos aspectos, sendo um deles o da escrita. Mas, como? Não é o povo cigano restrito à tradição oral? Sim, mas existe uma geração que abandonou o nomadismo e se integrou perfeitamente à comunidade onde vive. E que, aliás, vive como médico, advogado, comerciante ... e poeta, por exemplo. Daí porque, verifica-se uma troca de experiências literárias, em que a reflexão de um aponta para a sensibilidade do outro; a interpretação filosófica, para o viés espiritual do outro.
Religiosidade
Religiosidade,por quê? Porque, em algum momento, deixamos escapar o curso normal e, numa tentativa de recuperá-lo, apelamos para o desconhecido, o inexplicável. Assim, a religiosidade existe num contexto de substituição da lógica pela crença, em seu sentido místico.
Mito
Mito, segundo reflexões muito exclusivas, tem ao menos três concepções: quando eu falo em mito de fundação (de um país, por exemplo), estou querendo me referir às histórias, à epopeia, aos acontecimentos fantásticos em torno do surgimento desse país; se, porém, eu relato episódios havidos em um mundo paralelo - e, ao mesmo tempo, superior do ponto de vista da imortalidade - eu estou colocando em evidência as histórias do universo dito mitológico, o reduto das divindades. Porém, o mito também tem uma conotação, digamos, mais popular - estamos nos referindo ao engano, à farsa e à "máscara que cai", e que, nessa hipótese, desmistifica. É o que ocorre quando fatos novos, concretos e incontestáveis atestam que essa ou aquela impressão, desde sempre passada para o grupo, afinal não se sustenta - justamente porque, ao invés de se confirmar como verdade, se revela como mentira.
sábado, 3 de outubro de 2015
A DIÁSPORA CIGANA
A DIÁSPORA CIGANA
Em um mundo cada vez mais próximo do mito do Apocalipse - caos, violência humana, desordem, desconstrução - nos sentimos vivendo em uma casa onde todos os fios estão desencapados.
Um conhecido intelectual europeu, com mais de oitenta anos, declarou outro dia que jamais imaginou que iria assistir novamente aos espetáculos de barbárie e estupidez posto em cena pelos nazistas. E no entanto, o Estado Islâmico parece ter não apenas lhes sucedido como excedido em selvageria.
A dispersão de povos pela Europa é o que de mais deprimente se poderia assistir após a insana caminhada dos judeus rumo aos fornos de cremação. A tal ponto é capaz de afetar as pessoas com um mínimo de sensibilidade e piedade cristã, que tudo o mais de suas próprias vidas torna-se irrelevante - por mais sofrimento que represente - diante do drama desses seus semelhantes. Milhares de seres humanos se deslocando sem muita noção se vão chegar a algum lugar - e onde vão chegar - podem ser comparados a manadas sendo tangidas para o matadouro. Mantém grande semelhança, mas consegue ser pior em desgraça que a diáspora do povo cigano.
"Ó História! Como na caldeira
Onde os países fervem
Tu repudiaste a família cigana!
Tu queimaste seu coração de fogo..."
Leksa Manush
Alguém disse, certa vez, que o cigano não sente saudade porque não em pátria pela qual possa chorar. Não é verdade. Cada lugar por onde passa, deixa em cada Rom um sentimento de nostalgia - de um canto a outro tudo muda, tudo é próprio e exclusivo, só a lua e as estrelas é que são as mesmas.
Nascidos não se sabe bem aonde, rejeitados não se sabe bem por quê, os ciganos constituíram, ao longo dos séculos, correntes migratórias que os espalhou pelo mundo. Empreenderam pelo menos três diásporas. Discriminados, perseguidos, escravizados, maltratados e exterminados em bando, chegaram a ser considerados uma moléstia, coisas e não pessoas Sua errância constante e a ausência de uma tradição escrita transformou sua história neles mesmos - cada cigano é sua própria história. Uma história de horror e resistência. Dizem que não sucumbiram graças à tradição e porque são homens-árvore originários das entranhas da Terra.
Um conhecido intelectual europeu, com mais de oitenta anos, declarou outro dia que jamais imaginou que iria assistir novamente aos espetáculos de barbárie e estupidez posto em cena pelos nazistas. E no entanto, o Estado Islâmico parece ter não apenas lhes sucedido como excedido em selvageria.
A dispersão de povos pela Europa é o que de mais deprimente se poderia assistir após a insana caminhada dos judeus rumo aos fornos de cremação. A tal ponto é capaz de afetar as pessoas com um mínimo de sensibilidade e piedade cristã, que tudo o mais de suas próprias vidas torna-se irrelevante - por mais sofrimento que represente - diante do drama desses seus semelhantes. Milhares de seres humanos se deslocando sem muita noção se vão chegar a algum lugar - e onde vão chegar - podem ser comparados a manadas sendo tangidas para o matadouro. Mantém grande semelhança, mas consegue ser pior em desgraça que a diáspora do povo cigano.
"Ó História! Como na caldeira
Onde os países fervem
Tu repudiaste a família cigana!
Tu queimaste seu coração de fogo..."
Leksa Manush
Alguém disse, certa vez, que o cigano não sente saudade porque não em pátria pela qual possa chorar. Não é verdade. Cada lugar por onde passa, deixa em cada Rom um sentimento de nostalgia - de um canto a outro tudo muda, tudo é próprio e exclusivo, só a lua e as estrelas é que são as mesmas.
Nascidos não se sabe bem aonde, rejeitados não se sabe bem por quê, os ciganos constituíram, ao longo dos séculos, correntes migratórias que os espalhou pelo mundo. Empreenderam pelo menos três diásporas. Discriminados, perseguidos, escravizados, maltratados e exterminados em bando, chegaram a ser considerados uma moléstia, coisas e não pessoas Sua errância constante e a ausência de uma tradição escrita transformou sua história neles mesmos - cada cigano é sua própria história. Uma história de horror e resistência. Dizem que não sucumbiram graças à tradição e porque são homens-árvore originários das entranhas da Terra.
sábado, 26 de setembro de 2015
UM MUNDO QUE TAMBÉM É NOSSO
Mágico, porque nele a magia existe e se move; encantado, porque as entidades que nele habitam são ditas "encantadas"; misterioso, porque nele o mistério está em toda parte: na lua madrinha, na força do vento, na estrela distante, no olhar da coruja, no poder da salamandra - espírito do fogo, na beleza da dança com os pés no chão, nas palavras da cigana que encontramos no meio da estrada. Assim é o mundo cigano.
Os costumes, as crenças, a história, as lendas, os valores desse povo não encontram paralelo nas sociedades "gadjós" (não-ciganos). Talvez por isso, exerçam tanto fascínio sobre nós, espectadores desse mundo.
Através dos textos, ora informativos, ora romanceados, relativos a esse universo singular e místico, este espaço busca trazer um pouco da tradição e desvendar o cotidiano de alguém que sabe que a essência dessa aventura chamada viver cabe toda num pote cigano.
Ao penetrar no mundo das pessoas Rom, algo que acontece naturalmente é a escolha de um cigano ou cigana de proteção. Claro que existem correlações entre as datas de nascimento e tais espíritos de luz. Porém, o mais importante é que essa entidade esteja em sintonia com nossa vibração, com nossas expectativas. Essencial é a identificação com a trajetória, os ensinamentos, o posicionamento deles em relação às coisas que têm relevância para nós: o amor, a saúde, a harmonia interior, a Natureza ... a prosperidade, por que não?
Não devemos entregar nossas vidas a esse ou essa cigana de luz, mas a ele ou ela recorrer quando necessário e frequentemente para agradecer. Eles são protetores, e não guardiães.
Um critério para a escolha, que deve ser de pronto afastado é a beleza. Aliás, beleza só é critério em concurso de misses. A entidade cigana que conquistar seu coração e sua mente deve estar numa redoma de devoção, afinidade, confiança e amor. Embora seja muito comum acontecer de tal entidade caracterizar-se por extrema beleza, charme, elegância, simpatia e sensualidade. Para ficar em apenas dois dos muitos exemplos, temos as ciganas Sarita e Samara, ambas em minha aura.
Samara é uma linda cigana ruiva - algo raro em se tratando de um povo possivelmente originário da Índia - cujo nome significa "protegida por Deus". Ela trabalha com o fogo e as salamandras; usa a chama de uma vela vermelha e a labareda da fogueira sagrada para desmanchar feitiços. Traz sempre na mão direita um vistoso cristal jaspe sanguíneo. Já Sarita é uma cigana igualmente bela, andarilha, que trabalha na cor vermelha para o amor e em amarelo/dourado para a prosperidade. Sarita da Estrada, também chamada Sarita dos Caminhos, adora dançar e receber flores para colocar no cabelo. Seu vestido bordô com rendas douradas empresta ao seu porte majestoso uma elegância divina. Dizem que se alegra com oferendas, como um arranjo de flores vermelhas, vinho tinto ou água e uma taça - uma dessas coisas. E as recebe em cruzeiros de jardim ou em encruzilhadas de praças.
Este texto inicia uma série denominada "lua madrinha - mundo cigano", com postagens sempre às segundas - feiras. E para encerrá-lo, gostaria de reafirmar que o enigmático mundo cigano, no fundo, é o mundo de todos que têm alma cigana. Um mundo que também é nosso e onde a felicidade assim se define:
Um campo aberto
Um luar
Um violão
Uma fogueira
O canto do sabiá
A magia de uma cigana
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
HY- BRASIL I
A elevada espiritualidade e o admirável empenho para manter a tradição, contribuem para envolver o universo cigano numa atmosfera de singularidade e mistério.
Embora nada tenha a ver com esse universo, o texto a seguir trata de um assunto igualmente singular e misterioso, além de lendário e mitológico. Diz respeito a uma ilha, dita fantasma, que o mundo dos gadjós (não-ciganos) escassamente conhece, mas que, aqueles que por um caso tiveram acesso à sua provável existência afirmam terem se rendido à faceta intrigante do desconhecido.
Segundo relatos de alguns navegadores e o trabalho minucioso de muitos cartógrafos, principalmente os dos séculos XIV e XV, existiria, desde tempos imemoriais, uma estranha ilha situada a oeste da Irlanda, cuja principal característica seria sua aparição apenas de sete em sete anos, após um intenso e repentino nevoeiro. Essa ilha, de acordo com os mapas e com as histórias que atravessaram todas as eras, seria a Hy-Brasil. Também chamada Brasil de São Brandão, Ilha Brasil ou Ilha do Brazil.
Existe uma longa discussão em torno desse nome - Brasil - que não cabe aqui reproduzir. O importante é que a essa ilha misteriosa - ou mitológica, como queiram - dever-se-ia o nome desse país-continente em que vivemos, o que colocaria por terra a repetida versão da história oficial de que estaria relacionado à madeira aqui encontrada pelos descobridores, o pau-brasil, que, de tão avermelhada, ao observador parecia estar "em brasa". Ou, "um brasil".
Segundo a lenda, a lendária ilha, bem no meio do "mar oceano", seria o abrigo de uma sociedade de características avançadas - como Atlântida - e de um imenso tesouro, com ouro e prata em abundância. Existe, inclusive, o relato de um daqueles desbravadores do ciclo dos descobrimentos que jurava ter descido à ilha e retornado à sua embarcação com metais preciosos e um ancião nativo.
A se dar um mínimo de credibilidade a essas histórias, é possível acompanhar a existência de sucessivas referências, nos mapas elaborados ao longo dos séculos já citados e um pouco adiante, à Hy-Brasil, sempre naquela região (oeste da Irlanda) e ligada à "tradição de São Brandão das terras afortunadas". Senão, vejamos:
--- mapa da Catalunha, de 1324 ou 1330, de autoria de Angelino Dalorto
--- mapa de Dulcert, de 1339
--- mapa dos irmãos Pizagani, de 1375 ou 1378
--- mapa de Andrea Bianco, de 1436
--- mapa atlântico de Zuane Pizzigano, de 1424
--- mapa anônimo, chamado Weimar, de 1425
--- mapa de Battista Ceccario, de 1435
--- mapa de Bartolomeu Pareto, de 1455
--- mapas de Gracioso Benincasa, de 1479 e 1482
--- mapa de Fernão Vaz Dourado, de 1568
Se você acha que tem mistério de mais, aguarde Hy-Brasil II.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
FILHOS DO VENTO: LUAR, AMOR, MÚSICA E DANÇA
Ciganos são filhos do vento. Nós que nos sentimos como se tivéssemos nascido na kumpanía, e dela falamos com amor, sabemos que eles são assim denominados por sua identificação plena com o sentimento de liberdade, com a mais fluida mobilidade, e com a errância, sempre ao sabor do vento.
Filhos do vento - também sabemos - dominam os conhecimentos magísticos, têm a arte da vidência e o dom da cura. Consideram o elemento espelho como meio adequado para refletir o tempo, a memória ancestral, o saber.
Filhos do vento, povos das estrelas, irmãos da lua, sabem que a felicidade está no respeito à tradição e no amor à mulher escolhida.
"... um amor que numa noite de lua cheia, ao redor da fogueira sagrada, foi jurado da seguinte forma: a cigana tece um anel com os fios de seu cabelo, e o cigano faz o mesmo; os anéis são banhados no vinho e depois são seguros com a mão direita. O cigano coloca o anel no dedo anular da cigana, e ela faz o mesmo com ele. Beijam-se e juram amor eterno - a partir de então, nada mais conseguirá separá-los. Custe o que custar, acabarão juntos para cumprir o juramento".
Os filhos do vento são festeiros e adoram a música e a dança. Existe a crença, entre os ciganos, de que a cigana exímia dançarina será, também, uma boa esposa. Todos concordam que a dança cigana envolve espiritualidade, unindo "coração, alma e misticismo".
Música e dança na tradição cigana possuem influência hindu, húngara, árabe, espanhola e russa. No entanto, a influência maior é mesmo espanhola - o flamenco. Em relação aos ciganos que vivem no Brasil, observa-se a predominância da música húngara, do violino e do estilo dos kalderash (etnia cigana): a música alegre, ritmada, com acompanhamento das mãos e dos pés. Na dança, o cigano tem a viril leveza, e a cigana tem a inconfundível sensualidade, em frente da fogueira, sob as bênçãos da salamandra.
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